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Antes de tudo, uma pausa

  • Foto do escritor: Joao Lucas
    Joao Lucas
  • 17 de jan.
  • 3 min de leitura

Antes de tudo, uma pausa

Talvez criar um ano novo comece de outro lugar

Antes de tudo, eu queria te convidar a parar um pouco.


Não para planejar.

Não para decidir.

Não para prometer nada.

Só para olhar.


Todo começo de ano parece carregar uma força estranha. Um empurrão quase automático para a frente. Como se fosse obrigatório já saber o que vem depois. Como se não olhar adiante fosse sinônimo de atraso, acomodação ou fracasso.


Mas esse olhar para frente nem sempre é leve.

Muitas vezes, ele vem carregado de comparação, de falta, de cobrança.


A gente olha para tudo aquilo que não é.

Para tudo aquilo que não conquistou.

Para tudo aquilo que não conseguiu ser.


E, sem perceber, transforma esse balanço em um tribunal interno. Um lugar onde a própria história passa a ser julgada com dureza. Onde o presente parece sempre insuficiente.


Talvez por isso tantos começos de ano sejam mais paralisantes do que inspiradores.


Como já observava Søren Kierkegaard, “a maior parte dos homens persegue o prazer com tanta pressa que acaba passando por ele”. Às vezes, na pressa de criar algo novo, a gente passa direto por onde está.

E talvez seja justamente aí que algo se perde.


Quando olhar para o que não é vira violência


Quando a gente olha para aquilo que não é, esse olhar pode seguir caminhos muito diferentes.


O mais comum é o da cobrança.

Da comparação.

Do desmerecimento silencioso.


Nesse caminho, o olhar vira uma espécie de câmara fria interna. Um lugar de congelamento, onde tudo parece pouco, atrasado, aquém. Aos poucos, começam a aparecer frases que não são ditas em voz alta, mas que pesam por dentro:

– não é o bastante

– não fez o suficiente

– não chegou onde deveria


Esse tipo de narrativa não costuma chegar de forma agressiva. Ela se instala devagar. Vai corroendo o valor daquilo que a pessoa é, viveu e atravessou. Vai apagando o percurso e deixando apenas o resultado que não veio.


Mas existe um outro caminho possível.


Olhar para aquilo que não somos não precisa ser, necessariamente, um julgamento.

Pode ser reconhecimento.

Pode ser tomada de consciência.


Aquilo que eu não sou hoje não é, por si só, prova de fracasso. Pode ser apenas o retrato de um processo que ainda está em curso. Um processo que não terminou. Um processo que segue vivo, mesmo que não tenha chegado onde imaginávamos.


A história que a gente conta sobre si mesmo

É muito comum ouvir, no fim do ano, frases como:

“Eu não consegui mudar.”

“Eu não consegui crescer.”

“Eu não consegui ser quem eu queria.”


Essas frases parecem simples, mas carregam uma lógica perigosa: a de que o valor de uma pessoa está exclusivamente no resultado final.


E se, em vez de perguntar apenas por que eu não consegui, a pergunta fosse outra?

O que em mim precisou existir para eu chegar até aqui?


Talvez você não tenha conquistado o que queria.

Talvez o plano não tenha funcionado.

Talvez o cenário tenha sido mais difícil do que parecia.


Mas você sobreviveu.

Você sustentou relações.

Você atravessou dores.

Você permaneceu de pé em contextos que exigiram muito.


Quando a gente ignora isso, cria uma narrativa empobrecida sobre si mesmo. Uma narrativa que não reconhece esforço, atravessamento, adaptação, resistência. E isso não é neutro.

Na prática, esse tipo de leitura afeta a autoestima, o senso de pertencimento, a dignidade e a saúde mental. Não porque a pessoa “pensa errado”, mas porque aprende a se olhar apenas pelo que falta.


Criar um ano novo, talvez, não comece com metas.

Talvez comece com reconhecer a legitimidade da própria história.


Criar sem se violentar

Talvez o convite aqui não seja fazer listas intermináveis.

Nem promessas solenes.

Nem resoluções rígidas.


Talvez o convite seja mais simples — e justamente por isso, mais difícil: olhar para tudo aquilo que você não é sem transformar isso em violência contra si mesmo.


Porque só existe caminho para se tornar algo quando aquilo que se é hoje não é tratado como erro. Quando o presente não é vivido como um defeito a ser corrigido.


Carl Rogers lembrava algo que soa quase paradoxal, mas profundamente humano: “O curioso paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar.”


Aceitação, aqui, não é acomodação.

Não é desistência.

Não é falta de desejo.

É ponto de partida.

Talvez criar um ano novo não seja inventar alguém diferente.

Talvez seja permitir que você exista por inteiro.

Com limites.

Com contradições.

Com processos inacabados.


Antes de tudo.

E, a partir daí, deixar que o que ainda não é possa, aos poucos, encontrar espaço para se tornar.

 
 
 

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© 2026 por João Lucas Silva

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